A Revolução Industrial provocou profundas transformações nas cidades, que se expandiram muito. Daí podermos afirmar que, desde o final do século XVIII, industrialização e urbanização caminharam sempre juntas. Em primeiro lugar, porque a industrialização moderna se concentra no espaço urbano. Segundo, porque foi a partir da Revolução Industrial que se desenvolveu um enorme processo de urbanização de toda a sociedade humana.
A grande concentração de pessoas nas cidades deve-se a vários fatores. De um lado, as primeiras máquinas exigiam grande número de trabalhadores que morassem perto das fábricas; de outro, a comercialização dos bens industriais exigia estabelecimentos comerciais, que são próprios do meio urbano. Além disso, a infra-estrutura criada para atender às necessidades e aos interesses de determinadas fábricas — como, por exemplo, a abertura de ruas e estradas, a instalação de água encanada, o estabelecimento de meios de comunicação, o fornecimento de energia, etc. — atraiu novas indústrias, o que fez aumentar a concentração de pessoas nas cidades.
Quando muitas pessoas se concentram numa área, surgem inúmeras atividades para prestar serviços a essa população: escolas, bancos, lojas, hospitais, companhias de seguros, escritórios de contabilidade, de advocacia, etc. E tudo isso atrai mais gente ainda para a cidade.
Ao mesmo tempo que o espaço urbano crescia com a industrialização, o campo também sofria importantes mudanças: novas técnicas foram introduzidas na agropecuária, o que aumentou consideravelmente a produtividade. A mecanização da agricultura diminuiu a necessidade de mão-de-obra no campo, enquanto crescia a necessidade de trabalhadores nas fábricas e nos serviços urbanos. Isso fez os moradores do campo se deslocarem para as cidades — o que ficou conhecido como migrações rural-urbanas.
Assim, a população urbana passou a crescer bem mais do que a população rural, o que caracteriza o processo de urbanização. Este processo se diferencia do simples crescimento urbano, que diz respeito apenas ao crescimento das cidades. Para haver urbanização é preciso que a população urba¬na aumente em relação à população total do país.
Quando a atividade industrial passa a co¬mandar a economia de um país, este se torna um país urbano. Portanto, a industrialização de um país é sempre seguida da urbanização, ou seja, há uma diminuição da população rural em relação à população urbana.
Com a indústria, o Brasil se urbaniza
Embora a lavoura cafeeira tenha contribuído para a formação de pequenas e médias cidades, o processo de urbanização do país só se iniciou no século XX com a industrialização.
A indústria atraiu um grande número de pessoas que migraram do campo para a cidade, o que deu início à urbanização. Só então a população das cidades passou a crescer mais do que a população rural do país. Trata-se, portanto, de uma urbanização recente. Apenas em 1970 a população urbana brasileira, que correspondia a 56% do total, ultrapassou pela primeira vez a população rural (44%). Em 1980, ela já correspondia a 67% e, em 2000, a 81,2%.
A industrialização tardia trouxe consequências importantes para a urbanização do país. As fábricas instaladas nas cidades que se industrializaram não conseguiram absorver grande parte da população expulsa do campo. Assim, cresceu muito a fração do setor terciário que abriga o subemprego (comércio ambulante, emprego doméstico, etc.) e que utiliza muita mão-de-obra. Este setor terciário não qualificado caracteriza a maioria das cidades brasileiras.
O crescimento urbano no Brasil
A colonização do Brasil pêlos portugueses iniciou-se no século XVI com a plantação de ca-na-de-açúcar. Embora o cultivo da cana e sua transformação em açúcar se realizassem no campo, a comercialização desse produto levou ao desenvolvimento de atividades urbanas — comércio, empréstimos bancários, transportes marítimos. Com isso surgiram as primeiras cidades brasileiras ao longo do litoral, principalmente no Nordeste.
Nessas cidades, que eram os centros de comercialização do açúcar, instalaram-se representantes do governo da metrópole portuguesa para exercer o controle das atividades da colónia. Logo que chegou, em 1549, o primeiro governador-geral, Tomé de Sousa, fundou Salvador, que passou a ser a capital, sede da organização política, jurídica e administrativa da colónia. Recife e Olinda eram as duas outras cidades importantes na época.
Durante todo o período em que a economia brasileira dependeu da monocultura canavieira, a maior parte da população vivia no campo. O cultivo da cana e a fabricação do açúcar eram feitos pelo trabalho escravo nos próprios engenhos (as fazendas canavieiras). Nos engenhos havia algumas lavouras de subsistência, criava-se gado para alimentar a população e desenvolvia-se artesanato para prover as demais necessidades das pessoas. Os senhores de engenho também viviam no campo e recorriam ao comércio europeu para obter produtos mais sofisticados para seu consumo pessoal e o de sua família. Por isso, nessa época não chegou a se estabelecer efetivamente uma sólida divisão territorial do trabalho entre o campo e a cidade. Do ponto de vista económico, as cidades limitavam-se a ser um elo com o mercado europeu. Nenhuma se tornou um importante mercado consumidor, pois o escravo não possui liberdade nem salário para adquirir mercadorias.
Portanto, a lavoura canavieira permitiu apenas um pequeno crescimento urbano, definindo uma característica que se tornou marcante no Brasil durante cerca de dois séculos: a existência de uma frágil vida urbana, constituída por algumas poucas grandes cidades, localizadas no litoral.
Apenas no começo do século XVIII, quando a mineração deslocou o eixo da economia brasileira do litoral para o interior, é que surgiram várias cidades pequenas, além de cidades médias, nos lugares em que os recursos minerais (ouro e pedras preciosas) eram encontrados.
A mineração favoreceu uma divisão territorial do trabalho entre o campo e a cidade e, gra-dativamente, entre várias cidades. Isso porque aqueles que extraíam o ouro não tinham nenhum interesse em se ocupar da plantação de géneros alimentícios.
Assim, pela primeira vez estabeleceram-se intensas relações comerciais entre o nordeste açucareiro, o centro minerador e o sul pecuário da colónia. Dessa forma surgiram cidades como Cuiabá, Barbacena, Ouro Preto (antiga Vila Rica), Sabará, São João del-Rei, Mariana, Cáceres, Goiás (antiga Vila Boa) e outras. O Rio de Janeiro, onde se localizava o grande porto exportador de ouro, tornou-se capital da colónia em 1763, o que explica por que não tardou a transformar-se numa grande cidade.
Apesar de a mineração ter propiciado um crescimento urbano considerável, várias das cidades criadas na região das minas entraram em crise quando as riquezas minerais se esgotaram. Portanto, continuou predominando no Brasil uma vida urbana com poucas cidades grandes.
A partir da primeira metade do século XIX, a lavoura cafeeira ocasionou um crescimento significativo de pequenas e médias cidades. A lavoura cafeeira teve características itinerantes, ou seja, o cultivo do café com o emprego de técnicas rudimentares foi esgotando os solos onde era realizado e se estendendo para outras áreas. Isso explica o surgimento de muitas cidades, primeiro no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, depois avançando por todo o interior do estado de São Paulo e atingindo o norte do Paraná. Um grande número de cidades cresceu ao longo das ferrovias construídas para transportar o café.
Entretanto, os capitais provenientes da exportação do café concentraram-se em duas grandes cidades: primeiro no Rio de Janeiro, que possuía 272 972 habitantes em1872 (enquanto São Paulo possuía apenas 31 385 habitantes), e depois em São Paulo, que em 1900 já possuía 239 820 habitantes. Na verdade, a lavoura cafeeira trouxe mais benefícios à cidade de São Paulo, particularmente a partir do momento em que a exportação de café passou a ser feita pelo porto de Santos.